2006/04/24

Santa Teresa de Ávila


SANTA TERESA

Terra...
Era em Ávila da Ibéria a minha terra...
Terra!
Mas eu não vi a terra que me teve!
Nem lhe dei o calor que um filho deve
A sua Mãe!
Terra!
Nem lhe sabia o nome verdadeiro!
Nem a cor! nem o gosto! nem o cheiro!
Nem calculava o peso que ela tem!

Terra...
Vai-se embaçando o brilho dos meus olhos!
Apodrece o tutano dos meus ossos!
Crescem as unhas doidas nos meus dedos
Contra a palma da mão encarquilhada!
Medra o livor em mim de tal maneira
Que me babo de nojo do meu nada!

Terra!...
E andei eu a morrer a vida inteira!
E andei eu a secar a seiva da raiz
Que do Céu ou do Inferno me prendia
A ti, humana terra de Castela!
Terra!
E andei eu a viver a morte que vivia
Disfarçada em amor na minha cela!

Terra!...
E andei eu a negar o amor do mundo,
Quando de pólo a pólo o meu amor podia
Ser sem limites como a alma quer!...
E ser fecundo como a luz do dia!
E dar um filho, porque eu fui mulher!

Terra!...
E andei eu a legar este legado:
“Vivo morrendo primeiro”,
Derradeiro Castelo a que subi!...
Terra...
E Deus, que prometeu ter-me a seu lado,
Tem-me aqui.


Miguel Torga


Confesso que não sei exactamente de que gosto mais neste poema. Talvez goste dos dois últimos versos, da desalentada tomada de consciência do silêncio de Deus (de que Shusako Endo já falara em, justamente, Silêncio) por parte de Santa Teresa. Ao pôr a nu a evidência de uma vida falhada porque entregue a uma determinada crença, é um poema potencialmente desconfortável e angustiante, mas ao mesmo tempo lúcido. Assustadoramente lúcido (ou enganasomente lúcido, quiçá). O Torga era danado.

2006/04/17

A medula da Guarda Nacional Republicana

O guarda pôs-se no meio da estrada e mandou-o parar. O condutor, um velhote de 70 anos, tinha, como me disse depois, "tudo em ordem", mas ficou um "bocadito nervoso". O guarda pediu-lhe os documentos dele e os do carro. Os dele trazia-os no bolso da camisa, juntamente com outros papéis. Instintivamente, porque ainda tinha de procurar os documentos do carro no porta-luvas, o velhote deu os documentos todos para a mão do guarda ("até as facturas da farmácia lhe dei para as mãos"). Pediu então à neta, que seguia a seu lado, que tirasse do porta-luvas uma bolsa com os documentos do carro. Ainda a neta não tinha encontrado a bolsa, e já o guarda lhe estava a dizer "pode seguir, está tudo em ordem".
Ainda que intrigado, arrancou. Como prometido, levou a neta ao café para comer um gelado. Quando ia a pagar, tirou do bolso da camisa os documentos, entre os quais estaria uma nota de 20 euros (parte do troco da despesa da farmácia). A nota, claro, já lá não estava. "Ó Pedro, tinha acabado de receber aquela nota na farmácia... Até me custa a acreditar! Nem é tanto pelo dinheiro, mas é mais pelo que o guarda ficou a pensar de mim! Eu tinha tudo em ordem...".
A título de curiosidade, o número 9 do Código de Honra do Militar da Guarda (cf. www.gnr.pt) diz, ipsis verbis, que O militar da Guarda não só não comete qualquer [quaisquer] actos de corrupção, como deve rigorosamente combatê-los e opor-se-lhes quando deles tenha conhecimento.

2006/04/12

Serei o único...

... a ter vontade de rebentar os balões que miúdos de faces rosadas e camisolas babadas transportam nos centros comerciais? Geralmente, ao lado, seguem pais com um ar triste e cansado, cabisbaixos, com os gelados que os filhos não quiseram acabar e com o casaco que os filhos não querem vestir. O passeio domingueiro de quem não tem mais paciência para estar com os filhos é este, ainda que lá fora esteja o sol que esteve hoje.

2006/04/08

Um post a partir do Lietuvos Respublikos Seimas

O parlamento lituano tem, nas bancadas, um PC ligado à net. Não consegui resistir. Fica para a história.

2006/04/05

Vilnius

Estou longe. Nem consigo escrever um post sem erros por causa do teclado lituano. Fica apenas o agradecimento aos que visitaram e linkaram. Obrigado.

2006/03/31

1760,42...

... é o valor, em euros, que eu gastei em 2005 em livros. Em DVDs e CDs gastei outro tanto, mas esse não entra para o IRS, tal como os 183€ que gastei a ir ver jogos do Benfica. Em bilhetes de cinema e de outros espectáculos devo ter gasto outro tanto. Cá em casa, sempre que mexo nas facturas, deprimo-me.

2006/03/29

Os caracóis que deslizam na minha escadaria...

...morrem às dezenas cada vez que chove. Ao voltar para casa à noite, sinto de vez em quando aquelas existências moles a entranharem-se nas solas dos ténis ao som de uma frágil concha que se desfaz. Tenho pena quando os encontro de manhã, secos e irreconhecíveis, porque até gosto de caracóis. Sobretudo numa esplanada, com uma cerveja e com uma boa companhia.

Caderno de intenções

Não tenho, o que agora me parece ser a melhor maneira de começar um novo blog.